ARTUR JOSÉ PEREIRA
Artur José Pereira, nascido em 22 de abril de 1927 em Sambade,
conselho de Alfândega da Fé, distrito de Bragança, Portugal.
Homem lutador, desde muito jovem dedicou-se a vida do campo com
seus pais,mas logo se casou e procurou ter uma vida melhor.
Decidiu então imigrar para Angola em 1954, e a viagem durou 26
dias de barco.
Chegou em Angola e logo se tornou responsável por uma roça de
café, no Quitexe,Norte de Angola, onde permaneceu até 1961.
Mas, numa manhã de janeiro,Conflitos entre africanos e portugueses,
fizeram-no perder tudo, precipitando assim, com mulher e filhos, seu
regresso para Portugal.
Muito lutador, um pouco teimoso, destemido, resolveu voltar no mesmo
ano para Angola, dessa vez para Luanda, capital.
Trabalhando na polícia em Luanda, pouco a pouco conseguiu melhorar
sua vida, construindo sua casa abeira de uma linda praia, onde residimos
com muita paz,alegria e felicidade.
Anos mais tarde, decide abrir um restaurante, construiu mais uma casa,
alugou-a,e assim, com mais e mais conquistas, muito trabalho, sem ao
menos se dar ao direito de descansar em férias, ficou muito tempo
sem voltar a Portugal.
Até então, tudo parecia estar bem. Em 25 de abril, aconteceu a revolução
para a liberdade, a democracia começa em Portugal, a ditadura
salazarista vive seus últimos momentos. Formou-se um governo
provisório, onde decidiram entregar as colônias ao povo africano.
Conflitos na guerra civil, ataques contra os brancos, roubos e crimes
eram rotina em Luanda, roubando nossa paz.
Com isso, minha mãe, irmão e irmã, regressaram a Portugal, ficando eu
e meu pai em Luanda.
Certa manhã, ele foi avisado que haveria um ataque contra seu
restaurante.
Deixou tudo em meu poder e embarcou com urgência para Portugal.
Eu, só, sem minha família, apenas em companhia de meu tio, não vivi
vida fácil.
Os partidos para libertação de Angola, começam a querer o poder a
todo custo numa total anarquia.
Com a guerra civil, tornava-se insuportável a situação da capital.
O partido do M.P.L.A. parecia ganhar terreno e tudo, dia a dia, foi-se
complicando. As dificuldades em manter o restaurante também, pela
falta de alimentos e mercadorias.
Até que um dia, quando percorria o trajeto para o restaurante, e me
encontrando em zona de partido oposto, fui pego pelos militares, onde
então fui condenado a morte pelo simples fato de ter um restaurante
em território do partido inimigo.
Fecharam meus olhos com um farrapo, encostaram-me contra um muro, e
fiquei esperando o fuzilamento por aqueles militares que só tinham um
objetivo:
Acabar com todos os brancos.
No exato momento que eu iria ser executado por um homem fora de
controle,e cheio de ódio, pára um carro a 6 metros de distância e ouço
o grito de um homem, ordenando que parassem.
Eu, quieto,tremendo, gélido, com a sensação de dormência parecendo
estar sem circulação, senti uma mão me puxando com força e me
arrancando o farrapo dos olhos. Assim que abri os olhos, vi que
era Vandune, um colega do liceu e que naquele momento, era
comandante das forças de libertação de Angola.
Ele me olhou, me reconheceu, e me atirou ao chão, me maltratando,
dizendo milhares de palavras horríveis,mas na seqüência me levantou
e sutilmente me piscou o olho.
Aliviado, entendi que as coisas começavam a melhorar.
Gritando, colocou a arma em minha cabeça,colocou-me num Jeep e
disse aos colegas que iria se ocupar perfeitamente de mim.
Nesse momento eu estava tão atordoado que não sabia ao certo se
estava a salvo ou não, pois no liceu éramos apenas colegas e não
verdadeiramente amigos.
Levou-me a alguns quilômetros dali, e arrumou um local na capital
para que eu pudesse dormir e aguardar um avião, do qual era cada
vez mais raro e difícil.
Após poucos dias, as forças políticas desse partido que havia me
capturado, tomou o território que se
encontrava o restaurante e fizeram ali um quartel general.
Acabaram-se aí as esperanças de viver nesse lugar e trabalhar com
o restaurante.
Em alguns dias, um avião da companhia alemã, pousa sobre Luanda
para levar os refugiados que restaram.
Foi então que meu amigo do liceu (de apenas colega subiu para o posto
de amigo), me colocou nesse avião
e fui para Lisboa, com apenas a roupa do corpo e nada mais.
Meus pais nada sabiam, pois a comunicação era impossível.
Lembrou-me bem da alegria de meu pai vendo-me de volta são e salvo.
Nessa época ele tentou reconstruir a vida em Sambade, mas logo notou
que já não poderia ser feliz ali.
Deixou Sambade e imigrou para o Irã, onde trabalhava numa firma
americana no domínio do petróleo.
Conseguiu enviar alguns dólares para Portugal, onde aos poucos foi
reformando a casa que seus pais
lhe deixaram de herança.
Naquele momento, quando a vida parecia entrar nos eixos e caminhar
bem,novamente algo acontece para destruir seus sonhos: a revolução
iraniana.
Com a queda do reinado do Xá do Irã, a monarquia pérsica termina, e
com ela,os sonhos de meu pai, tendo
que voltar para Portugal.
Minha irmã resolve se casar e viver com meu cunhado em lisboa.
Logo após casar minha irmã, meu pai, não desistindo de lutar, nem
de sonhar, imigra para Israel, onde permaneceu uns anos e seu retorno
se deu próximo ao casamento de meu irmão, que iria residir em Sambade.
Eu me encontrava em terras espanholas e francesas.
Após o nascimento de minha sobrinha Sandra, filha de minha irmã, meus
pais passam a viver
em Lisboa, ali trabalhando numa loja e construindo sua casa e anos
mais tarde, constroem um restaurante.
A vida não foi fácil para eles. Tiveram que se adaptar a uma cultura
diferente,pessoas diferentes, horários,muito trabalho e noites e noites
sem dormir.
Sem contar as muitas viagens entre Lisboa e Sambade.
Minha mãe, grande companheira, sempre ao seu lado.
Em 2002, decide construir outra casa em Sambade, sua terra natal,
imaginando passar ali, seus últimos
dias de vida tranqüilo e em paz com sua mulher.
Em agosto de 2003, feliz, com a casa terminada, convida toda a família
para uma festa maravilhosa.
Pela primeira vez, estávamos todos juntos, muito felizes comemorando
aquele inesquecível momento.
Mas, infelizmente, nossa felicidade não perdurou.
Deus decidiu diferente, foi com muita dor, que em 12 de julho de 2004,
um câncer nos separou do nosso querido pai.
Deus o levou para descansar em paz.
Rogo para que descanse em paz...
Te amo papa, sinto tua falta, e fico na certeza que nos encontraremos
um dia.
De: João Batista Pereira
Revisão: Tânia Passarelli
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